
Estudante, novo na empresa, caçula entre os colegas de trabalho, conhecido como “pau para toda obra”. A piada no escritório é que ele serve café como ninguém. Tratados como mão-de-obra barata, este era o estereótipo do estagiário dentro das empresas, mas especialistas alertam aos desavisados que o cenário mudou. Hoje, formar profissionais sem vícios de antigos empregos ou métodos de trabalho e identificados com os valores da organização é o objetivo atual dos gestores.
Porém, apesar de as oportunidades parecerem promissoras para os estudantes, dados recentes do Censo do Inep/MEC provam o contrário. A pesquisa aponta que no Brasil existem 8.337.160 matriculados no Ensino Médio e 5.080.056 no nível superior. Somente 9% dos jovens entre 18 e
24 anos ingressaram em uma faculdade. Desses 13,4 milhões, somente 6,7% conseguem estagiar. O cenário atual no mercado de trabalho são jovens buscando oportunidades e gestores com dificuldade de encontrar universitários qualificados para ocupar as vagas.
Para o empresário Marco Valério, que participou de debate sobre a “vida dura do estagiário” em evento em Porto Alegre, o maior problema é a dificuldade que a chamada geração Y (e agora também a geração Z) têm para se expressar: “Não fomos educados para o debate. O ensino formal brasileiro nos trata como HDs (hard disks), cujo armazenamento de dados é avaliado no vestibular. Não aprendemos a ser objetivos, claros e convincentes. E a capacidade para fazer relacionamentos qualificados aparece com destaque no conjunto de atributos indispensáveis do profissional deste início de século”, diz.
Já o publicitário Fabio Bernardi, diretor de criação da agência Paim, aponta o imediatismo e a falta de profundidade dos estudantes como o principal déficit. “Houve uma versão de 20 minutos que compilou os 3 filmes do Poderoso Chefão, pra quem não tinha tempo ou ’saco’ de ver a trilogia inteira. E é exatamente esse ter no currículo, ainda que de forma superficial, que é cada vez mais comum. Não se aprofunda mais nada, basta ter uma experiência rala e frugal que justifique citá-la e pronto”, afirma o publicitário.
Bernardi ainda destaca a impaciência e o desejo dos universitários de pular etapas. “A vida se acelerou, a internet e as mídias sociais vulgarizaram algumas coisas e hiperdimensionaram outras. Isso gerou jovens mais impetuosos, impacientes e não necessariamente desejosos de fazerem carreira por muito tempo no mesmo lugar. Muitas empresas investem no estagiário e logo depois o cara se manda e o investimento vai por água abaixo”, explica.
Parece que o vilão da história é somente o estagiário, mas não é bem assim. Apesar de muitas empresas estarem investindo em vagas para universitários, pesquisa aponta que elas têm diminuído ao longo dos anos. De acordo com Abres, o total de vagas de estágio no Brasil antes da aprovação da Lei n° 11.788 – a chamada Lei do Estágio, que formalizou uma série de direitos para o estagiário, como férias – era de 1,1 milhão. Hoje esse número é de 900 mil, sendo 650 mil para o Ensino Superior e 250 mil para o Ensino Médio. Ou seja, houve uma redução de 65 mil vagas para o nível superior e 135 mil para o nível médio. Rafael El Santos, 23 anos, teve dificuldade de ingressar em um estágio. Atualmente, trabalhando no site de um veículo jovem, o estudante de publicidade valoriza a vaga que conquistou. “Gosto muito de trabalhar aqui. Faço um estágio de 6 h que me paga bem, quando comparado às ofertas do mercado. Mas o principal é o aprendizado. Faculdade sem estágio forma um profissional teórico, e a visão prática é essencial”, diz.
Apesar da diminuição das vagas no mercado, o empresário Marco Valério acredita que o autoconhecimento pode ajudar os futuros profissionais.
“Mercado é gente. Então, entenda de gente. Autoconhecimento ajuda.
Quanto mais você conhece o seu próprio funcionamento, mais chances você terá de entender o funcionamento dos outros”, destaca. O publicitário Fábio Bernardi aposta no aprofundamento intelectual dos universitários como algo que faz diferença nas entrevistas de emprego. “Saiam do currículo da internet, fujam do estereótipo do jovem do videogame. Vejam o Poderoso Chefão inteiro”, aconselha.
Fonte: Blog da Loja Mania Kids